quarta-feira, 15 de setembro de 2010

ENQUANTO ESTÁVAMOS FORA .... O NEGÓCIO PEGOU FOGO POR AQUI!!!!

Enquanto estávamos fora, as coisas pegaram fogo aqui em Moçambique. Ouvi relatos de brasileiros, li notícias nos jornais e vou tentar resumir os acontecimentos de 01 e 02 de setembro de 2010 em Maputo nas frases abaixo:

Guebuza e sua equipe anunciam 50% de aumento de preços para gêneros de primeira necessidade (luz, pão, entre outros).
Moçambicanos começam a mandar SMS convocando a população para ir às ruas protestar.
População se aglomera próximo ao aeroporto de Maputo, queimando pneus e saqueando lojas em busca de alimentos.
Polícia intervém inicialmente com balas de borracha.
As balas de borracha acabam.
Polícia começa a soltar tiros de verdade para conter a população.

Oficialmente, seriam 13 mortos e 140 feridos, mas o fato é que não há números exatos, dizem que foram muito mais de 13 mortos. Guebuza e sua equipe retrocedem e apresentam novas propostas de subsídios governamentais para evitar aumentos de 50% incluindo corte de benefícios e aumentos de salários dos próprios governantes.

Este episódio demonstra algo que é latente, em meu ponto de vista, em Moçambique .... o DESPREPARO. Governo despreparado para tomar decisões. Povo despreparado para protestar por seus direitos. Polícia despreparada para realizar seu trabalho. Despreparo, despreparo, despreparo. Vivencio este despreparo todos os dias, nas mais pequenas coisas. Não é falta de vontade. Não é preguiça. É despreparo mesmo.

Além disto, concluo que a sensação de estabilidade que eu tinha em Moçambique era falsa. De fato, fui eu mesma quem criou esta farsa. Os governos, as economias, as pessoas são instáveis em qualquer lugar do mundo. Como já relatei neste blog, o genocídio em Ruanda teve início apenas 24 horas após o assassinato do presidente daquele país. Me parece que, quando estamos em nosso país de origem, é mais fácil lidarmos com as instabilidades que possam ocorrer (e que, com certeza, ocorrem) pelo próprio sentimento de pertencimento a uma nação.

De qualquer maneira, quando estamos há tempos em um lugar, acabamos nos sentindo parte dele. Quando cheguei em casa, um rapaz moçambicano que presta serviços aqui no condomínio me saudou dizendo: “Bem vindos a sua segunda casa. Depois de tanto tempo aqui já devem se considerar moçambicanos, não é?” Respondi que sim. Estamos aqui há quase 2 anos, pagamos impostos, fazemos a economia crescer, oferecemos emprego e amparo a alguns membros da sociedade .... Sim. Somos, de certa forma, moçambicanos....

De fato, somos como aqueles primos do interior que vêm fazer faculdade na cidade grande e ficam na casa de uma tia por uns 3 ou 4 anos... no início somos apenas visita, mas com o passar do tempo acabamos nos sentindo mais em casa, dando opiniões na sistemática da família, reclamando da comida e, até mesmo, dando uns amassos na prima.


Links com notícias sobre os acontecimentos de 01 e 02 de setembro:


http://www.google.com.br/imgres?imgurl=http://3.bp.blogspot.com/_ZlZKwpS7rFw/TH77Z9Erj0I/AAAAAAAABXI/FGc9UY7cKHg/s1600/maputo%2B5.jpg&imgrefurl=http://desigualdadedireitos.blogspot.com/2010/09/motim-nas-ruas-de-maputo-1-de-setembro.html&usg=__Aa68s62xdFUQsLG5FYXVQS8nEFo=&h=435&w=569&sz=77&hl=pt-BR&start=14&zoom=1&itbs=1&tbnid=FF7LhRO3fN2xsM:&tbnh=102&tbnw=134&prev=/images%3Fq%3Dmaputo%2Bsetembro%2Bmanifesta%25C3%25A7%25C3%25B5es%26hl%3Dpt-BR%26sa%3DG%26gbv%3D2%26tbs%3Disch:1

quinta-feira, 9 de setembro de 2010

VOLTAR PRA CASA !!!!???!!!

Quando voltamos para casa? Quando saímos de Tete rumo ao Brasil OU quando saímos do Brasil rumo a Tete? Difícil responder.

Depois de 6 meses apenas em África, passamos 32 dias no Brasil e, desta vez, as sensações foram diferentes. Saímos menos ansiosos do que das últimas vezes (se é que é possível sermos menos ansiosos em viagens internacionais). Os 32 dias passaram rápido, mas a sensação era que já estávamos ali há 40, 50, 60 dias devido, provavelmente, a agitação da cidade.

Londrina estava muito bonita. Parece que o novo prefeito está fazendo um bom trabalho. A cidade está organizada e já é uma grande metrópole, e, para aqueles que têm orgulho de serem ‘pés vermelhos’ como eu, foi muito bom retornar. A família estava bem, uns casando, outros engravidando, outros se formando. Os amigos pareciam felizes e envolvidos em seus trabalhos (só eu estava de férias!!!!). Novamente muitos prometeram dar um jeito de nos visitar no outro lado do Atlântico.

Como diz o cancioneiro popular: “Cada volta é um recomeço”. Por sorte, toda vinda pra Tete eu acabo na janela do avião. Por mais sorte ainda, sempre do lado certo, aquele no qual o Rio Zambezi começa a aparecer; aquele no qual dá pra ver de longe as savanas se transformando em cidade.

Beijos e abraços das vizinhas queridas (que fizeram bolos de boas vindas), os olhares de satisfação da Dona Rosa e Dona Quinedi (que literalmente refletem o medo da gente nunca mais voltar e deixar elas sem trabalho e sem dinheiro), a expressão de felicidade das crianças da cidade me vendo estacionar o carro próximo a padaria (provavelmente pensando: “Ela voltou ... pão e moedinhas estão garantidos”) são mais do que suficiente para que a gente se sinta em casa.

A primeira coisa que descobri ter sentido falta é do português moçambicano. Não consigo imitar, nem mesmo descrever, mas agora já me acostumei com a fala deste povo e passei a gostar do jeito que eles pronunciam as palavras. Preciso fazer uma gravação e guardar para a posteridade. Entretanto, ao tentar usar o celular, lembrei do que não senti saudade aqui ... a ineficiência da telefonia.