sexta-feira, 30 de julho de 2010

DONA FÁTIMA E SUA PATROA

Quando uma família estrangeira se muda para Tete, para abrir um negócio ou trabalhar em algumas das empresas multinacionais, trazem para os habitantes da cidade novas possibilidades de emprego e esperanças de mudança. Em contrapartida, para as famílias estrangeiras, há o contato com o novo, o aprendizado sobre as diferenças culturais que ocorre, principalmente, no contato com os empregados da casa. É com eles e a partir deles que compreendemos o que é ser africano e podemos transformar realidades, mesmo que sejam de uma ou duas famílias.

Observo que estas mudanças ocorrem mais efetivamente em lares de famílias brasileiras. Talvez saibamos entender e aceitar melhor as diferenças e, como sabemos que estamos só de passagem, nos esmeramos para transformar a vida dos que estão perto de nós antes que irmos embora.

A história de Dona Fátima e sua patroa ilustram esta troca de experiências humanas. Nos cinco anos que estiveram juntas em Tete, a vida das duas mudou completamente. Dona Fátima aprendeu com sua patroa que não devia mais aturar o marido trazendo outras mulheres para dentro da própria casa, ela entrou com os papéis no governo e conseguiu um terreno para morar com os filhos. A patroa, que chegou casada, se separou. A pessoa que lhe estendeu a mão e cuidou dela nos piores momentos foi Dona Fátima.

Dona Fátima e patroa superaram as separações juntas, a patroa mudou para nova casa, Dona Fátima comprou os tijolos para construir a sua. Patroa arrumou novo emprego, Dona Fátima voltou a estudar. Patroa encontrou novo amor, Dona Fátima também. Patroa incentivava Dona Fátima e esta, além de terminar os estudos, tirou carteira de motorista de caminhão (com seus 1m50cm de altura). Por incentivo da patroa, Dona Fátima começou a ensinar os afazeres domésticos para as mulheres moçambicanas que, acostumadas a trabalhar nas machambas (lavouras), não tinham experiência em limpar, passar ou cozinhar. Dona Fátima se tornou uma professora dos afazeres domésticos e outras moçambicanas conseguiram emprego por causa da ajuda dela.

A patroa ajudou Dona Fátima a conscientizar-se e aprender a viver com o vírus da AIDS. Dona Fátima ensinou a patroa que mesmo no meio das adversidades um sorriso de orelha a orelha pode ‘salvar’ o dia de alguém. A patroa cuidou de Dona Fátima como se cuida de uma mãe. Dona Fátima cuidou da patroa como se cuida de uma filha. Ou seria vice e versa?

Quatro meses depois da volta definitiva da patroa para o Brasil, coube a mim ligar e contar a ela que Dona Fátima faleceu esta madrugada. De fato, depois que a patroa foi embora ela nunca mais conseguiu trabalhar. Na semana seguinte da ida da patroa, a saúde começou a piorar e dia após dia a AIDS vencia a batalha. Parece-me que ela esperava mesma a ida da patroa para se entregar ou  talvez ela mesma tenha sido pega desprevenida pelo avanço da doença. Os cinco anos da amizade de Dona Fátima e a patroa renderam frutos; hoje os três filhos órfãos têm um teto para dormir, o que significa muito na realidade moçambicana. Para a patroa, restam as lembranças e os ensinamentos de superação de Dona Fátima apontando que não há outro caminho a seguir a não ser em frente.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

A VENDEDORA DE AMENDOINS (Imagem cedida por Silma Malacrida)

Fotografar é uma arte. É como contar uma história de vida a partir do clique de uma máquina fotográfica. Minha amiga Silma faz isto com perfeição. Ela capta a história e o sentimento das pessoas que fotografa. Vou tentar, a partir das imagens cedidas por ela, contar histórias de Tete e de seus habitantes. Sei que uma imagem vale mais do que mil palavras, mas cada pessoa  faz arte do jeito que consegue, eu só sei  (tentar) fazer através das palavras.

Esta é a uma das meninas mais lindas e mais simpáticas de Tete, a vendedora de amendoins. Lá estamos nós, esperando a ponte abrir e ela surge com seu sorriso inconfundível. A primeira vez que a vi, ela tinha os cabelos cobertos por pequenas contas coloridas e apesar de não gostar de amendoins comprei alguns apenas para vê-la feliz realizando seu trabalho. Quando comentei sobre ela com um dos brasileiros que trabalha em Tete, este respondeu: "Ahhh, a vendedora de amendoins .... sei ... todo mundo na empresa compra os amendoins que ela vende .... só para ver ela sorrir"

quarta-feira, 30 de junho de 2010

MAIS SOBRE O TRÂNSITO DE TETE

Quando eu digo que o trânsito de Tete é uma loucura, as pessoas acham que estou exagerando. Bodes, vacas, bois, galinhas, crianças, idosos, bicicletas lotadas de carga, chapas lotadas de gente, motos, caminhões são apenas alguns dos 'obstáculos' dos quais temos que desviar quando estamos dirigindo aqui.
Mas nada se compara a imagem abaixo.... Moçambicano levando a namorada para passear.... Brincadeira!!!! O povo se vira como pode...

segunda-feira, 28 de junho de 2010

SE FUI POBRE, NÃO ME LEMBRO....

Só me lembro que fui convidada para O CAMAROTE DA FIFA no jogo BRASIL x PORTUGAL do último dia 25 de junho. Eta vida boa minha gente!!!! Tratamento VIP, comidinhas, ar condicionado, vinho, cerveja, tudo do bem e do melhor. Mas vamos relatar esta aventura desde o começo.
Acordamos as 4h30min da matina e fomos para o aeroporto de Maputo com nossos ingressos da arquibancada. No aeroporto,  já começamos a sentir  o clima da copa, todo mundo de verde e amarelo soprando as vuvuzelas antes mesmo do sol raiar. Havia também muitos portugueses com suas camisas vermelhas e seus narigões característicos. No voo para Durban já estava pensando que o Brasil não poderia perder, pois como era um voo charter, teria que encarar todos estes portugueses na volta pra Maputo.
Chegando em Durban, nos surpreendemos com a cidade. Fomos passear na praia e no Casino próximo ao estádio, nossos ouvidos ardendo com as vuvuzelas quando avistei o Ricardo Espinoza, radialista em minha cidade natal, no celular e acenei com a mão dizendo LONDRINAAAAAAAAAA... não é que ele estava transmitindo ao vivo e veio ao nosso encontro, colocou o telefone na minha boca e perguntou qual era meu nome ... foi muito engraçado. Fiquei imaginando como o mundo é pequeno e quem estaria ouvindo meu nome em Londrina naquele momento. Logo após, chega um amigo nosso com as boas notícias, tínhamos convites para os camarotes da FIFA, nem acreditei, que coisa mais VIP!!!!!
O Estádio Moses Mabhida em Durban é, sem dúvida, o mais bonito da Copa 2010. Parece um barco a vela.  Conforme fomos nos aproximando, todos ficamos de boca aberta. O mais legal é estar entre os brasileiros. Dá uma sensação de pertencimento, de reconhecimento de quem somos e de onde viemos. Nossa bocas continuaram abertas até chegarmos ao camarote, quando nosso queixo literalmente caiu ... buffet privê, garçonetes a nossa disposição, todas as bebidas e comidas que desejássemos .... foi demais.
Não preciso nem dizer que o jogo deixou a desejar. Joguinho de cumadre... os sul-africanos ficaram espantados de ver a torcida brasileira e seu comportamento não ortodoxo, inclusive duas malucas que ficaram de pé e gritando os 90 minutos do jogo em um dos camarotes da FIFA.  Oh... gente sem classe!!!! kkkkkkk.... O hino de guerra dos brasileiros era: O PORTUGUÊS, COMO É QUE PODE... A SUA FILHA TEM BIGODE!!!!!! e os portugueses não tinham outra opção a não ser rir.
Até que o empate foi bom, pelo menos a volta pra casa foi amistosa entre brasileiros e portugueses.
Adorei ir a Copa do Mundo!!!! É realmente uma festa maravilhosa.







sexta-feira, 28 de maio de 2010

VOO GUARULHOS - JOHANNESBURG

Meu marido não gosta muito de futebol (eu sei.... tirei a sorte grande). Aliás, não gosta e não entende muito. Esta semana ele estava no voo Guarulhos/Joburg. Veja a descrição dos acontecimentos:
"O voo atrasou pq as estrelas de tv estavam embarcando: ernesto paglia, a moça do globo esporte e eu nunca vi tanto cameraman junto. Eles todos se conhecem e o voo pareceu mais uma confraria do assunto mais culto e interessante do momento: a escalação do dunga. A dada altura não aguentei e disse: Conversei muito com robinho e ele está muito otimista, inclusive com a recuperacão do kaka (uahahah, nem sei se essa recuperacao eh do joelho, de uma noite c travecos ou se ele deu todo o salario pra igreja!!), mas foi um comentário contundente. Seguido de um: Com essa escalação de retranca, vai ser um jogo chato, alem de q a regra básica eh q quem nõo faz, leva! - percebi q analisar jogos de futebol pode ser fácil."
Ele não é uma graça? Parece que vai dar certo: JOGO BRASIL vs PORTUGAL em 25 de junho.... aí vamos nós!!!!!!!!!!!! 3 horas de avião até Maputo .... 8 horas de van até Durban!!!!

CROCODILOS MATAM 14 PESSOAS EM TETE

Maputo (AIM)- Pelo menos 14 pessoas morreram vitimas de ataques de crocodilos no distrito de Changara, província central de Tete, em Moçambique.

Acreditem se quiser... esta é a notícia 'completa' vinculada sobre morte de 14 moçambicanos no site do Ministério da Saúde de Moçambique. O que a notícia não explica é que, mesmo sabendo que há crocodilos nos rios, a população se 'aventura' a tomar banho e lavar roupa porque não tem acesso a água encanada em suas casas. Da mesma forma, a notícia não relata que os moçambicanos acreditam que os crocodilos atacam apenas as pessoas que foram amaldiçoadas por feitiços. Então, se ninguém te amaldiçoou com um feitiço, não há problemas em nadar nos rios.
Imagina se um estrangeiro, melhor, um brasileiro fosse morto por crocodilo. Depois da revolta, certamente a história ia virar piada. No mínimo a pessoa seria ponto de referência na família .... sabe aquela tia? Aquela que é mãe da nossa prima que morreu comida por crocodilo na África ..... eta morte mais sem classe.

sexta-feira, 21 de maio de 2010

CERCADA PELA POBREZA

Quando me perguntam sobre como é morar em um país em que o índice de pobreza é tão elevado, eu costumo dizer que "a gente acaba se acostumando". Em  Moçambique, não há aquela coisa do Brasil de bairros pobres e bairros ricos. Uma mansão pode estar exatamente ao lado de uma palhoça onde não há água encanada ou qualquer tipo de conforto. O bairro onde moro não é asfaltado, em tempos de chuva, criam-se piscinas nas ruas que só caminhonetes 4X4 conseguem ultrapassar. Não há supermercados em Tete, a população compra comida em barracas nas ruas e para os visitantes, como nós, há apenas lojinhas que cobram um preço exorbitante porque sabem que os 'brancos' estão acostumados com aqueles produtos e podem pagar mais por eles. O 'sacolão/peixaria' é um local onde se aglomeram mulheres com os produtos de suas machambas, umas vendem, outras cozinham para todas e outras dormem no chão. É uma mistura de cores, cheiros e pessoas que atordoa quem não está acostumado. Mas a grande verdade é que, quando se vê a pobreza de perto todos os dias, ela passa a fazer parte do cotidiano, ela passa a ser parte do cenário. Entretanto, as vezes, acontecem coisas que são como um tapa na cara, coisas que nos tiram o chão e fazem com que, pelo menos por algum tempo, lembremos que pobreza não é algo com que se acostume, pobreza é infelicidade. Vou relatar alguns tapas na cara que levei aqui.

A FILHA DA EMPREGADA DA VIZINHA
Ouvi a vizinha comentando que sua empregada estava faltando ao trabalho há uma semana porque sua filha estava doente. Na semana seguinte, encontrei com a Sra em frente a minha casa e perguntei como estava sua filha. Ela disse que ainda não tinha se recuperado. A menina tinha o pescoço duro e não conseguia pender o pescoço para frente. O médico havia dito que era uma doença que começava com M, mas ela não se lembrava muito bem do nome. Quando ela disse isto, senti que fiquei pálida, ela deve ter reparado. Insisti que ela lembrasse o nome da doença e depois de muito pensar ela disse o que eu achava que ia dizer: MENINGITE. Acho que de pálida, fiquei rosa, ela reparou. Perguntei se ela sabia o que era meningite, quais os medicamentos que o médico havia receitado ... ela disse que a menina havia tomado umas pílulas de alguma coisa (provavelmente paracetamol, que é o medicamento que geralmente se dá nos hospitais aqui). Disse a ela que meningite era uma doença muito séria e que ia conversar com a patroa dela para que ela prestasse auxílio a criança. Isto era uma quinta, viajei na sexta, voltei no domingo. A criança havia morrido no sábado. Quando me contaram senti meu rosto ferver, como quem leva um tapa na cara. Hoje, após duas semanas ela voltou ao trabalho. Foi dar meus pêsames a ela. Sua filha tem a mesma idade do meu filho. O pior é que ela acredita em feitiços, nem o consolo cristão de que sua filha agora é um anjo a consola pois não é nisto que ela acredita.

AS ROUPINHAS DAS FILHAS DA DONA KINEDI
Quando cheguei em Moçambique, comprei algumas capulanas e cortei em pedaços para forras as gavetas dos armários. Um dia, encontrei plásticos para comprar e decidi forrar novamente as gavetas. Acabei guardando todos estes recortes de capulanas pensando que um dia poderia ser útil para alguma coisa. Em uma das faxinas, Dona Kinedi abriu esta gaveta e perguntou para que serviriam aquelas capulas. Respondi que não sabia se utilizaria novamente aqueles recortes, que, se ela quisesse poderia levar. É claro que ela levou. Pensei que faria uma toalha ou forraria algum móvel, sei lá. Em um dos meus passeios de bicicleta, acabei passando perto da casa da Dona Kinedi. Ela saiu correndo pra me apresentar os sete filhos. Quando olhei para as crianças, fiquei paralisada. Todas elas vestiam roupas feitas dos recortes das capulanas que um dia forraram as gavetas do armário. Dava pra ver que eram costuras precárias, mas fiquei comovida com o vestidinho da filha menor que tinha até babadinhos. De novo, senti meu rosto ardendo. Mas um tapa na cara oferecido pela pobreza e pela realidade Moçambicana.